Poucas afirmações da tradição cristã são tão conhecidas quanto esta: Lúcifer caiu por soberba. A fórmula, porém, pode esconder mais do que revela. O que significa dizer que um anjo de inteligência extraordinária quis “ser como Deus”? Teria Lúcifer realmente imaginado que poderia deixar de ser criatura e transformar-se no próprio Deus?
João de Santo Tomás percebe imediatamente a dificuldade. Em seu Tractatus de Angelis, ao investigar a malícia dos anjos, ele não se contenta em repetir que o demônio pecou por orgulho. Procura determinar qual foi a estrutura desse pecado, qual bem o anjo procurou, de que maneira esse bem pôde tornar-se desordenado e por que justamente a soberba podia constituir o princípio da queda. O resultado é uma análise profundamente metafísica da liberdade criada.
Para compreendê-la, é necessário começar por uma afirmação fundamental: o primeiro pecado do anjo não nasce do amor ao mal enquanto mal. Ele nasce do desejo de um bem. O problema está no modo pelo qual esse bem é desejado.
O mal começa pela busca de um bem
A vontade não procura o mal simplesmente enquanto mal; ela se move porque alguma coisa lhe aparece sob a razão de bem. É justamente por isso que o pecado é possível. A criatura pode querer uma coisa realmente boa, mas querê-la fora da medida, da ordem ou da regra segundo a qual deveria ser querida.
No caso do anjo, isso assume uma gravidade singular. João de Santo Tomás observa que a natureza angélica é espiritual e extremamente elevada. Por isso, o primeiro objeto capaz de seduzir desordenadamente sua vontade não deveria ser procurado entre os prazeres corporais. O bem que mais imediatamente corresponde à grandeza de uma natureza espiritual é a excelência.
É aqui que aparece a soberba. João define-a como um apetite desordenado de excelência. O anjo contempla a própria perfeição e pode amá-la legitimamente; o pecado começa quando deseja essa excelência além da ordem que lhe convém enquanto criatura. A queda nasce, portanto, em uma região assustadoramente próxima da perfeição.
Por que a soberba podia ser o primeiro pecado
Outros pecados parecem pressupor alguma desordem anterior. O ódio supõe que alguma coisa seja considerada contrária ao próprio bem; o desespero, que um bem seja considerado inalcançável; a inveja, que a excelência alheia seja percebida como ameaça à própria excelência. A soberba, ao contrário, pode começar imediatamente no próprio amor desordenado da excelência.
Por isso João afirma que ela constitui o motivo mais adequado para explicar o início da queda angélica. O anjo não começa necessariamente dizendo: “Eu odeio Deus.” A lógica é mais profunda. Ele começa, por assim dizer, dizendo: “Quero minha própria excelência desta maneira.” Somente depois essa preferência desordenada pode colocar a criatura contra Deus.
O ódio de Deus, nessa leitura, não constitui adequadamente o primeiro movimento do pecado angélico, porque o ódio pertence à fuga ou à aversão. Antes de fugir de Deus, deve existir algum bem desordenadamente buscado em razão do qual Deus passa a ser percebido como obstáculo. A revolta começa antes da aversão: começa numa adesão desordenada à própria excelência.
“Serei semelhante ao Altíssimo”
A Escritura tradicionalmente associada à queda de Lúcifer oferece a fórmula: “Serei semelhante ao Altíssimo.” João de Santo Tomás aceita que o diabo desejou ser como Deus, mas imediatamente apresenta uma distinção fundamental: o anjo poderia ter desejado igualdade de natureza com Deus, ou apenas uma determinada semelhança com Deus?
São Tomás, seguido aqui por João de Santo Tomás, rejeita a primeira possibilidade como explicação formal do pecado. O anjo conhecia sua própria natureza, sabia que era criatura e sabia igualmente que a natureza divina não poderia simplesmente tornar-se sua. Desejar eficazmente transformar-se no próprio Deus exigiria um erro incompatível com a clareza intelectual atribuída ao anjo.
Por isso, o “ser como Deus” deve ser entendido de modo mais profundo. Lúcifer não precisou pensar: “Posso deixar de ser criatura e tornar-me numericamente o próprio Deus.” Sua soberba podia consistir em desejar possuir, à maneira própria da criatura, aquilo que deveria receber segundo outra ordem; ou, ainda mais radicalmente, querer para si uma independência e uma excelência que pertencem propriamente a Deus.
O problema não é simplesmente querer grandeza
Ser excelente não é pecado. Deus criou os anjos excelentes, e quanto maior a perfeição recebida de Deus, maior o bem da criatura. Também não seria pecado desejar a perfeição que Deus quer conceder. O problema aparece quando a criatura quer sua excelência segundo uma medida própria que rompe a ordem da dependência.
A soberba não é simplesmente “quero ser grande”. É algo mais próximo de: “Quero esta grandeza como minha, segundo meu modo, sem permanecer submetido à ordem superior segundo a qual devo recebê-la.” É exatamente por isso que a soberba possui uma dimensão metafísica: ela toca a posição fundamental da criatura diante do Criador.
Toda criatura recebe o ser, a natureza e suas perfeições. E, na ordem sobrenatural, recebe igualmente de Deus aquilo que supera suas capacidades naturais. A criatura pode ser extraordinariamente elevada, mas nunca deixa de ser criatura. Sua perfeição não consiste em deixar de depender de Deus, mas em receber plenamente aquilo para o qual Deus a ordena.
O ponto decisivo: receber de Deus
A síntese que João de Santo Tomás faz da doutrina de Santo Tomás é particularmente expressiva. O diabo não quis necessariamente igualdade de natureza com Deus. Sua tentativa de semelhança poderia consistir em desejar alcançar o fim último como procedente de sua própria natureza, sem recebê-lo do auxílio divino; ou em preferir sua própria felicidade natural à ordem sobrenatural oferecida por Deus.
Aqui encontramos talvez o núcleo mais profundo da soberba demoníaca. Não é simplesmente querer aquilo que Deus possui; é querer possuir como próprio aquilo que só pode ser recebido como dom. A criatura humilde diz: “Quero chegar à perfeição que Deus me oferece, pelo modo estabelecido por Deus.” A criatura soberba diz: “Quero minha perfeição por mim.”
A recusa da graça
Isso torna especialmente profunda a hipótese segundo a qual a soberba angélica esteve relacionada à bem-aventurança sobrenatural. A visão de Deus ultrapassa as capacidades de qualquer natureza criada. Nenhum anjo, por mais perfeito que seja, possui naturalmente direito ou força suficiente para produzir em si a visão beatífica: ela deve ser recebida de Deus.
Aceitar a ordem sobrenatural implica reconhecer algo radical: a criatura não é suficiente para si mesma. Mesmo a mais perfeita inteligência criada encontra acima de si um bem que não pode conquistar pela mera força da natureza. Ela deve recebê-lo. É precisamente aí que a soberba encontra sua tentação máxima: querer que a própria natureza fosse suficiente.
A graça afirma: recebe. A soberba responde: quero possuir por mim mesmo.
A felicidade natural e a ordem sobrenatural
João de Santo Tomás considera também outra possibilidade. O anjo poderia ter preferido permanecer na própria felicidade natural, presidindo aos demais segundo sua excelência, em vez de aceitar uma ordem sobrenatural na qual outras criaturas poderiam ser elevadas acima dele. Entre elas, João menciona explicitamente a humanidade de Cristo e a Santíssima Virgem.
Assim, aquilo que aparentemente seria modéstia — “não quero mais do que pertence à minha natureza” — poderia esconder uma soberba extrema. Essa recusa não seria motivada pela humildade, mas pela preferência da criatura por uma ordem na qual sua própria excelência permanecesse suprema.
Isso torna a questão extraordinariamente sutil. Pode existir soberba não apenas ao querer subir acima do próprio lugar, mas também em recusar uma elevação oferecida por Deus porque essa elevação exige aceitar a ordem estabelecida por Ele.
Cristo e a soberba do anjo
João de Santo Tomás aborda ainda uma questão mais especulativa: poderia o mistério da Encarnação ter desempenhado algum papel no pecado do primeiro anjo? Ele não apresenta isso como certeza; a questão permanece discutida. Mas considera possível que, entre as matérias nas quais a soberba angélica se manifestou, estivesse também a união hipostática.
A hipótese seria que o anjo, contemplando a excelência extraordinária dessa união entre a natureza humana e o Verbo, pudesse julgar uma honra tão sublime mais adequada à natureza angélica que à humilde natureza humana. A soberba poderia manifestar-se então no pensamento de que, se alguma criatura deveria receber semelhante honra, deveria ser ele — ou ao menos uma natureza superior como a sua.
É importante manter a cautela do próprio autor. João não afirma que isso seja demonstrado; apresenta-o como uma possibilidade dentro de uma questão cuja determinação histórica exata permanece incerta.
Da soberba nasce a inveja
A soberba também permite compreender outro pecado associado aos demônios: a inveja. Primeiro aparece a excelência própria buscada desordenadamente; depois, a excelência concedida a outro pode tornar-se dolorosa para aquele que já estabeleceu a própria grandeza como medida.
Enquanto a criatura ama a ordem de Deus, a perfeição de outra criatura pode ser contemplada como parte da bondade do todo. Mas, quando a vontade fixa desordenadamente seu fim na própria excelência, o bem de outro pode começar a aparecer como diminuição do próprio. A lógica demoníaca torna-se então: “Se outro é exaltado, minha excelência é ameaçada.”
A recusa da condição criada
Chegamos assim à raiz metafísica da questão. O pecado do anjo não pode destruir sua condição de criatura, mas sua vontade pode recusar a ordem que corresponde a essa condição. A criatura é recebida; Deus é por Si. A criatura participa; Deus é fonte. A criatura possui perfeições limitadas; Deus é plenitude.
Enquanto permanece nessa verdade, a excelência da criatura não concorre com Deus. Quanto mais perfeita é a criatura, mais manifesta a perfeição da causa da qual procede. A soberba altera essa relação: a criatura começa a considerar sua perfeição como algo cujo termo deveria ser ela mesma.
É nesse sentido que desejar “ser como Deus” adquire seu significado mais radical. Não é necessário imaginar uma criatura pensando que pode ocupar literalmente o lugar ontológico de Deus; basta que queira para si uma modalidade de independência incompatível com a condição criada.
O paradoxo de Lúcifer
A tragédia torna-se ainda maior quando consideramos quem peca. Não se trata de uma criatura intelectualmente rudimentar, mas, segundo a tradição, de uma inteligência altíssima. Precisamente por isso, a soberba demoníaca contém um paradoxo: quanto maior a excelência possuída, maior pode tornar-se a tentação de tomá-la como razão de autossuficiência.
O bem recebido torna-se ocasião de revolta contra aquele de quem foi recebido. A beleza pode tornar-se ocasião de soberba. João de Santo Tomás recorda, nesse contexto, a imagem de Ezequiel: “Elevou-se o teu coração na tua beleza.” Não foi a ausência de perfeição que conduziu à queda; foi a perfeição amada de maneira desordenada.
O primeiro non serviam é interior
A tradição frequentemente resume a rebelião de Lúcifer pela expressão non serviam — “não servirei”. Independentemente da utilização dessa fórmula como condensação teológica, a análise de João de Santo Tomás permite compreender seu significado profundo.
Antes da rebelião exterior existe uma alteração na ordem interior da vontade. O centro deixa de ser Deus como medida da minha perfeição e passa a ser minha perfeição segundo minha própria medida. Nesse instante, servir começa a parecer diminuição; receber, dependência intolerável; obedecer, perda da própria excelência.
Querer Deus de maneira errada
O soberbo não precisa desejar um objeto pequeno. Pode desejar a felicidade, a perfeição, a glória e até alguma semelhança com Deus. O pecado não se mede apenas pela grandeza do objeto desejado; é possível querer uma realidade elevadíssima de maneira radicalmente desordenada.
Por isso a alternativa cristã à soberba não é mediocridade. A humildade não diz “não quero ser elevado”. Diz: “Quero receber de Deus tudo aquilo que Ele quiser fazer de mim.” Essa é uma diferença enorme.
A queda como inversão da ordem
Existe uma ordem: Deus → dom → criatura → perfeição recebida → retorno a Deus. A criatura recebe de Deus sua natureza e sua perfeição e, por elas, ordena-se novamente ao próprio Deus.
A soberba tenta inverter essa orientação: perfeição → criatura → criatura como fim de si mesma. Aquilo que deveria conduzir a Deus fecha-se sobre o próprio sujeito. A excelência deixa de ser participada como dom e passa a ser apropriada como fundamento de independência.
E por que os demônios não se arrependem?
A questão conduz naturalmente a outro dos grandes temas do tratado: a obstinação dos demônios. João de Santo Tomás define a obstinação como uma adesão firme e imóvel da vontade a um fim perverso, sem retorno ao bem.
Isso permite perceber a continuidade entre soberba e obstinação. O pecado não é apenas uma ação isolada; ele estabelece uma orientação da vontade. No caso demoníaco, segundo a doutrina investigada pelo tratado, essa orientação chega a uma fixidez própria do estado de condenação.
A criatura que não quis sua perfeição como recebida de Deus termina eternamente separada da perfeição que somente Deus poderia conceder. É uma conclusão terrível justamente porque possui uma coerência interna.
A tragédia da soberba demoníaca
Lúcifer não cai porque possui pouca perfeição. Cai precisamente no âmbito de sua excelência. Não cai simplesmente porque deseja um mal evidente, mas desejando um bem sob uma modalidade desordenada. Não precisa imaginar ingenuamente que possa transformar-se ontologicamente em Deus; basta desejar aquilo que pertence à ordem divina sem aceitar a maneira criada de recebê-lo.
Não começa necessariamente pelo ódio. Começa pelo amor desordenado de sua própria excelência; o ódio pode vir depois, a inveja pode vir depois, a oposição pode vir depois. A raiz está no movimento pelo qual a criatura se escolhe como medida da própria grandeza.
É por isso que a soberba é tão radical. Ela não diz simplesmente “quero alguma coisa contra Deus”. No fundo ela diz: “Quero o bem segundo mim mesmo, e não segundo Deus.” E nessa pequena diferença encontra-se um abismo.
A questão em João de Santo Tomás
Voltar à fonte
O tema pertence principalmente à discussão sobre a malícia dos anjos, especialmente à investigação do gênero e do objeto do pecado angélico.
- a soberba como primeiro motivo adequado do pecado angélico;
- o significado de desejar “ser como Deus”;
- os possíveis objetos concretos dessa soberba.