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Filosofia da alma · Teoria do conhecimento

Como o intelecto humano conhece

Dos sentidos ao verbo mental segundo João de Santo Tomás

O homem começa a conhecer pelas coisas sensíveis, mas sua inteligência não permanece encerrada nelas. João de Santo Tomás explica como a percepção, a fantasia, o intelecto agente e o intelecto possível cooperam até a formação do conceito, do juízo e do raciocínio.

Benozzo Gozzoli · Triunfo de São Tomás de Aquino, c. 1470–1475 · Wikimedia Commons

Há uma experiência tão comum que quase nunca nos detemos nela: abrimos os olhos, vemos uma árvore e sabemos que aquilo que está diante de nós é uma árvore. Vemos este homem e compreendemos o que é um homem; tocamos uma pedra e podemos pensar não somente nesta pedra, mas na natureza da pedra. Entre o objeto que impressiona os sentidos e o conceito que se forma na inteligência existe, porém, um caminho admiravelmente ordenado. É esse caminho que João de Santo Tomás procura esclarecer ao comentar o terceiro livro do De Anima de Aristóteles.

O ponto de partida é profundamente aristotélico e tomista: o homem não conhece como um espírito puro. A alma humana é espiritual, mas é forma de um corpo; por isso, no estado presente, nossa inteligência recebe dos sentidos o material a partir do qual conhece. A potência intelectiva não está fixada num órgão corporal, mas, enquanto estamos unidos ao corpo, serve-se ministerialmente dos fantasmas fornecidos pela sensibilidade. Todo conhecimento humano começa, de algum modo, nos sentidos, embora não termine neles.

O mundo entra em nós pelos sentidos

Quando vemos uma árvore, a própria árvore não entra materialmente em nossa alma. O verde não se desprende das folhas para instalar-se no olho, nem a forma física do tronco passa para a mente. O conhecimento recebe a forma da coisa sem receber sua matéria. João de Santo Tomás prepara essa doutrina ao explicar, com Aristóteles, que os sentidos recebem as formas sensíveis sem a matéria, como a cera recebe a figura do selo sem receber o ferro de que o selo é feito.

Aquilo que o olho conhece, porém, permanece determinado: esta cor, esta figura, este corpo. Mesmo depois que o objeto exterior desaparece, pode permanecer em nós uma representação sensível dele. A imaginação, ou fantasia, conserva e apresenta essas imagens interiores. É sobre essas representações que começa propriamente o trabalho do intelecto. Não se deve imaginar, portanto, que a inteligência humana contemple as coisas materiais dispensando os sentidos. João de Santo Tomás insiste justamente no contrário: a alma humana ocupa o grau inferior entre as naturezas intelectuais e pode ser conduzida ao conhecimento pelos próprios corpos mediante a sensação.

O fantasma ainda não é o pensamento

A imagem interior de uma árvore não é ainda o conceito intelectual de árvore. Podemos imaginar uma árvore grande ou pequena, verde ou seca, situada aqui ou ali; toda imagem conserva alguma determinação sensível. O intelecto, ao contrário, pode compreender o que é uma árvore sem limitar sua compreensão a esta ou àquela árvore. A fantasia apresenta o objeto sob condições sensíveis; o intelecto alcança nele algo que ultrapassa essas condições.

É aqui que aparece a distinção entre intelecto agente e intelecto possível. Não são duas almas nem dois sujeitos pensantes dentro do homem, mas duas potências intelectuais que concorrem, de modos distintos, para a mesma vida do espírito.

A luz do intelecto agente

O fantasma fornecido pela imaginação é inteligível apenas em potência, porque ainda está ligado às condições particulares da matéria: este tamanho, esta figura, este lugar, este indivíduo. Para que aquilo que nele se encontra possa ser conhecido intelectualmente, é necessária uma potência que torne o objeto inteligível em ato. Esta é a função do intelecto agente.

João de Santo Tomás retoma a comparação tradicional da luz. Assim como a luz torna visíveis em ato as cores que sem iluminação suficiente não poderiam exercer plenamente a função de objetos da visão, o intelecto agente torna atualmente inteligível aquilo que no fantasma estava apenas potencialmente inteligível. Não se trata de um raio espiritual que incide fisicamente sobre uma imagem no cérebro, mas de uma abstração: o intelecto apreende a natureza inteligível da coisa sem as condições materiais que a individualizam.

Diante de Pedro, João ou Francisco, os sentidos encontram indivíduos; a inteligência pode alcançar aquilo pelo qual cada um deles é homem. Não destrói o singular nem o declara ilusório. Simplesmente considera a natureza inteligível sem considerar, naquele ato, aquilo que a restringe a este indivíduo determinado. O intelecto não inventa a inteligibilidade das coisas: recebe o real segundo um modo imaterial.

O intelecto possível: a inteligência que recebe

Se o intelecto agente torna inteligível em ato aquilo que estava inteligível apenas em potência, deve haver na alma uma potência capaz de receber essa determinação inteligível. João de Santo Tomás chama-a, seguindo Aristóteles, de intelecto possível. O nome não significa algo hipotético ou duvidoso. Significa a potência que pode receber as formas inteligíveis. Antes de conhecer determinada realidade, o intelecto não possui atualmente o conhecimento dela, mas pode recebê-lo.

A espécie inteligível abstraída torna-se então princípio pelo qual o intelecto conhece. Esta distinção é decisiva para o realismo tomista: a espécie inteligível não é simplesmente aquilo que conhecemos, como se a mente estivesse condenada a contemplar representações internas em lugar das coisas. Ela é aquilo pelo qual conhecemos a coisa. A inteligência não termina numa fotografia interior; pela espécie, alcança o objeto real.

Conhecer é tornar-se, de certo modo, aquilo que se conhece

Uma pedra permanece exterior ao homem enquanto pedra, mas, pelo conhecimento, sua forma pode existir intencionalmente naquele que conhece. A inteligência adquire assim uma abertura que nenhuma faculdade puramente corporal poderia possuir: pode receber a forma das coisas sem transformar-se fisicamente nelas. Quem conhece o fogo não começa a queimar; quem conhece uma árvore não cria raízes. A forma daquilo que é conhecido passa a estar no intelecto segundo o modo próprio do cognoscente.

É por isso que conhecer é uma perfeição. João de Santo Tomás situa a vida intelectiva como o grau mais elevado da vida humana: o vivente intelectivo não apenas recebe formas de operar, mas pode conhecer o fim e ordenar-se a ele racionalmente. A inteligência, portanto, não é uma faculdade acrescentada exteriormente ao homem; pertence à própria excelência de sua vida racional.

Da espécie inteligível ao verbo mental

O processo não termina quando o intelecto recebe a espécie inteligível. João de Santo Tomás avança para uma distinção mais fina: uma coisa é a espécie impressa que atualiza o intelecto; outra é a própria intelecção; outra, ainda, o conceito ou verbo mental, a espécie expressa na qual a coisa conhecida é concebida interiormente.

O conceito não é uma simples fotografia guardada na mente. É o termo interior da intelecção. Quando alguém diz a palavra “homem”, o som produzido pela voz dura apenas alguns instantes; antes dele existe, porém, uma palavra interior, aquilo que a inteligência concebe. A palavra exterior significa o conceito, e o conceito remete à realidade conhecida. A linguagem humana nasce, assim, de uma palavra interior.

Primeiro concebemos, depois julgamos

Nossa inteligência não se limita a formar conceitos isolados. Podemos compreender “homem”, “mortal” e “Sócrates”, mas podemos também afirmar que Sócrates é homem e que todo homem é mortal. Nesse momento ocorre algo diferente da simples apreensão: o intelecto compõe ou divide, afirmando que alguma coisa convém ou não convém a outra. Surge o juízo.

João de Santo Tomás distingue, seguindo Aristóteles e São Tomás, três operações do intelecto: a simples apreensão, o juízo e o discurso racional. Na primeira, concebemos aquilo que uma coisa é; na segunda, afirmamos ou negamos; na terceira, passamos de verdades já conhecidas para outra verdade que delas se segue. É o raciocínio. “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; portanto, Sócrates é mortal.” Aquilo que parece tão simples encerra a estrutura própria da razão humana.

Por que precisamos raciocinar?

Um intelecto superior não precisaria percorrer uma longa estrada para alcançar aquilo que está contido numa verdade. O homem, porém, conhece progressivamente. Primeiro apreende uma coisa, depois outra; compara, afirma, nega, recorda, deduz e descobre uma consequência que antes não havia percebido. Nossa razão caminha.

Essa condição manifesta ao mesmo tempo a grandeza e a limitação da inteligência humana. Grandeza, porque somos capazes de conhecer a verdade; limitação, porque precisamos procurá-la passo a passo. Não somos pedras, que nada conhecem; não somos animais irracionais, cujo conhecimento permanece no nível sensível; também não somos anjos. Somos espíritos encarnados. A dependência dos sentidos não é uma humilhação da inteligência, mas o modo próprio de conhecer de uma criatura que é simultaneamente espiritual e corporal.

O intelecto vai além do indivíduo sem abandoná-lo

Se o intelecto abstrai das condições individuais, isso não significa que conheçamos apenas universais e ignoremos Pedro, esta árvore ou esta casa. O singular material, enquanto submetido precisamente às condições que o individualizam, é objeto próprio da sensibilidade; o intelecto alcança diretamente a natureza abstraindo dessas determinações, mas pode voltar-se ao singular conhecido pelos sentidos e considerá-lo à luz da natureza que compreendeu.

Há, portanto, uma colaboração contínua entre inteligência e sensibilidade. Não existe, no homem concreto, uma guerra natural entre ambas. É o mesmo homem que vê e entende. A alma é o primeiro princípio pelo qual vivemos, sentimos, movemo-nos e entendemos, e a diversidade das potências não destrói a unidade do sujeito humano.

A inteligência foi feita para a verdade

Para João de Santo Tomás, entender não é simplesmente produzir conceitos. Se assim fosse, a inteligência estaria encerrada dentro de si mesma. O conceito existe para que a inteligência alcance a coisa conhecida; a intelecção encontra sua perfeição na verdade. Intelecto agente, espécie inteligível, intelecto possível e verbo mental não são peças de uma máquina escondida dentro da cabeça, mas distinções destinadas a explicar como aquilo que existe fora de nós pode tornar-se presente em nós sem deixar de ser aquilo que é.

Os sentidos recebem o real sensivelmente. A imaginação o conserva sensivelmente. O intelecto agente abstrai aquilo que pode ser recebido imaterialmente. O intelecto possível é atualizado por essa forma inteligível. A inteligência entende e, entendendo, forma interiormente seu verbo; depois julga e raciocina. Assim, começando pela cor de uma coisa vista pelos olhos, o homem pode terminar perguntando por sua essência, por sua causa e, finalmente, pela primeira Causa de todas as coisas.

Esta ascensão não consiste em fugir do mundo sensível. Começa justamente nele. O homem toma conhecimento da realidade pelo humilde ministério dos sentidos e, entretanto, é capaz de elevar-se àquilo que nenhum olho pode ver. Eis uma das imagens mais belas da antropologia tomista: uma inteligência que recebe da matéria a ocasião de ultrapassar a matéria, uma criatura que começa conhecendo pelas coisas sensíveis e, porque possui intelecto, pode elevar-se à verdade universal e às realidades espirituais. Não pensamos apesar de sermos homens. Pensamos como homens.

A questão em João de Santo Tomás

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O tema é desenvolvido sobretudo nas Questões X e XI de Sobre o Ente Móvel Animado. A Questão X trata do intelecto agente e possível, da iluminação dos fantasmas, do objeto adequado do intelecto e do conhecimento do singular material. A Questão XI trata da intelecção, do verbo mental e das três operações do intelecto.

Nota bibliográfica

JOÃO DE SANTO TOMÁS (João Poinsot). Sobre o Ente Móvel Animado. Quarta Parte da Filosofia Natural, sobre os três livros de Aristóteles acerca da alma. Edição portuguesa do Officium Veritatis, 2026. Para este ensaio foram consideradas principalmente a preparação sobre os sentidos internos e a alma racional, a Questão X — Do intelecto agente e possível — e a Questão XI — Da intelecção e do conceito.