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Dons do Espírito Santo

Quando a virtude não basta

Por que o homem justo ainda precisa ser conduzido pelo Espírito Santo

Se a fé, a esperança, a caridade e as virtudes infusas já ordenam o cristão para Deus, por que ainda são necessários os dons do Espírito Santo? João de Santo Tomás responde distinguindo duas perfeições: agir bem segundo a razão iluminada pela graça e tornar-se dócil a uma moção divina superior.

Rafael, Disputa do Santíssimo Sacramento, 1509–1510, detalhe · Wikimedia Commons

Há uma pergunta que, à primeira vista, parece quase irreverente: se Deus já infundiu no cristão a fé, a esperança, a caridade e as virtudes necessárias para viver retamente, por que são ainda necessários os dons do Espírito Santo? Se a fé ilumina o intelecto, a caridade ordena a vontade e as virtudes morais infusas dispõem o homem a agir segundo Deus, não pareceria suficiente que a alma simplesmente praticasse essas virtudes com fidelidade?

A questão é importante porque toca uma distinção muito delicada da vida cristã. É possível imaginar a santidade como uma espécie de aperfeiçoamento moral: o homem conhece a lei de Deus, adquire bons hábitos, fortalece a vontade, domina as paixões e aprende progressivamente a praticar o bem. Há verdade nisso, mas apenas uma parte da verdade. Para João de Santo Tomás, seguindo de perto Santo Tomás de Aquino, a vida sobrenatural não consiste somente em o homem tornar-se capaz de agir corretamente. Existe algo mais profundo: ele deve tornar-se capaz de ser conduzido por Deus.

Aqui está talvez uma das diferenças mais belas entre a moral cristã e uma simples ética das virtudes. A virtude aperfeiçoa a faculdade humana para agir bem; o dom do Espírito Santo aperfeiçoa o homem para que possa agir bem sob uma moção superior à medida ordinária de sua própria razão. O santo não é somente um homem que aprendeu a escolher corretamente. É um homem cuja alma se tornou dócil à ação de Deus.

João de Santo Tomás exprime essa doutrina de maneira particularmente precisa. As virtudes teologais possuem uma dignidade altíssima porque nos unem imediatamente a Deus como nosso fim último. Os dons, porém, exercem outra função: aperfeiçoam-nos para que nos submetamos a Deus enquanto Ele nos move e regula. Assim, não existe competição entre virtudes e dons. Os dons não vêm corrigir alguma imperfeição moral da fé ou da caridade, como se estas fossem defeituosas. Eles pertencem a outra dimensão da vida sobrenatural: dispõem a criatura para seguir uma condução que procede imediatamente do Espírito Santo.

A razão humana é verdadeira, mas não é a última medida

É precisamente aqui que João de Santo Tomás toca um ponto que o homem moderno tem dificuldade de compreender. Estamos acostumados a imaginar que a maturidade consiste em tornar-se progressivamente autônomo. A criança precisa ser dirigida; o adulto é aquele que decide por si mesmo. Transferida para a religião, essa ideia produz facilmente uma imagem equivocada da perfeição cristã: Deus ensinaria ao homem os princípios da vida moral e depois esperaria que ele, já suficientemente formado, conduzisse a si próprio.

A teologia dos dons apresenta outra visão. Quanto mais perfeita a vida sobrenatural, mais profunda se torna a docilidade a Deus. Isso não significa destruir a razão. O Espírito Santo não substitui a inteligência humana, não transforma o santo num instrumento irracional e não dispensa a prudência. Ao contrário: Ele assume e aperfeiçoa tudo aquilo que criou. Mas a razão humana, mesmo elevada pela graça, continua sendo razão criada. Ela não possui por si mesma uma visão completa de todas as circunstâncias, de todos os perigos e de todas as disposições da Providência.

João observa que a criatura racional está sujeita a erros, perigos e contingências que não pode prever inteiramente por suas próprias forças. Por isso necessita de uma direção mais elevada. Ao tratar do dom de conselho, chega a dizer que a moção do Espírito Santo se estende não apenas às coisas extraordinárias, mas também aos atos ordinários ordenados à vida eterna. Isso ajuda a compreender por que os dons não pertencem somente aos momentos excepcionais da vida mística. Não devemos imaginá-los apenas quando um santo precisa tomar alguma decisão extraordinária, enfrentar o martírio ou realizar uma obra heroica. A necessidade é mais profunda. Toda a vida humana deve ser conduzida para um fim sobrenatural, e esse fim excede a proporção natural da razão.

A prudência pode dizer: este ato é razoável. A fé pode dizer: este ato é compatível com aquilo que Deus revelou. A virtude pode inclinar firmemente a vontade para o bem. Mas existem situações em que Deus quer conduzir a alma segundo uma medida mais alta, uma oportunidade que a simples deliberação humana não poderia calcular completamente. É nesse sentido que Santo Tomás, defendido por João, afirma que não basta a formação das virtudes “segundo o modo imperfeito de nossa razão” sem a presença da moção e do impulso do Espírito Santo que conduz o homem à vida eterna.

«Para conseguir aquele fim é necessário o dom do Espírito Santo», isto é, algum dom que dirija e regule de modo superior às virtudes.

Disputação XVIII, Art. VIII

A expressão deve ser entendida com cuidado. Não significa que a razão seja má. Significa que ela é limitada. E aquilo que é limitado não pode ser a medida última de uma vida cujo termo é o próprio Deus.

A perfeição cristã não é independência, mas docilidade

Há aqui uma consequência espiritual extraordinariamente importante. Crescer na graça não significa precisar cada vez menos de Deus. Significa tornar-se cada vez mais capaz de ser movido por Ele. João de Santo Tomás utiliza uma linguagem que pode parecer estranha aos nossos ouvidos: a alma deve tornar-se dócil à moção divina. Ele explica que os dons estão ligados entre si pela caridade e que o Espírito Santo, habitando na alma, torna-a obediente àquilo para o qual Ele queira movê-la.

«Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.»

Rm 8,14, citado por João de Santo Tomás

Esta docilidade não deve ser confundida com passividade psicológica. O santo não se torna menos livre. Ocorre o contrário. Quanto mais a vontade está purificada do egoísmo, das paixões desordenadas e do apego ao próprio juízo, mais prontamente pode responder ao Bem supremo. Há uma diferença entre alguém que obedece porque é incapaz de decidir e alguém que obedece porque reconhece uma sabedoria superior. A primeira obediência pode nascer da fraqueza; a segunda nasce da perfeição. É essa segunda que os dons tornam possível.

A comparação com o instrumento musical pode ajudar, embora seja imperfeita. Um violino de grande qualidade não se torna menos perfeito porque está nas mãos de um grande músico. Justamente porque é perfeito, responde às menores intenções de quem o toca. Um instrumento defeituoso resiste; um instrumento excelente responde. Algo semelhante ocorre na alma. As virtudes dão-lhe firmeza, ordem e retidão; os dons tornam-na sensível à direção do Espírito.

Por isso, a santidade não é apenas a vitória do homem sobre seus vícios. É também o desaparecimento progressivo daquela resistência interior pela qual insistimos em que Deus aja segundo nossos cálculos. Podemos possuir prudência e ainda assim sermos excessivamente apegados ao nosso próprio modo de compreender. Podemos possuir fortaleza e querer decidir por conta própria onde devemos ser fortes. Podemos desejar servir a Deus e, ao mesmo tempo, estabelecer as condições sob as quais aceitaremos servi-Lo. A doutrina dos dons introduz uma exigência mais radical: permitir que Deus escolha também o modo pelo qual quer conduzir-nos.

É precisamente por isso que a vida dos santos tantas vezes parece surpreendente quando julgada exteriormente. Nem todas as suas decisões podem ser reduzidas a um cálculo comum de conveniência. Isso não significa irracionalidade. Significa que, permanecendo inteiramente submetidos à fé, à moral e à prudência, foram às vezes conduzidos por uma docilidade mais profunda à Providência.

João de Santo Tomás é muito cuidadoso aqui. O Espírito Santo não destrói as virtudes. Os dons servem-lhes e as aperfeiçoam naquilo em que a condução simplesmente humana não alcança por si mesma. Por isso ele afirma que as virtudes teologais continuam sendo superiores aos dons: elas nos unem imediatamente a Deus; os dons dispõem-nos a seguir Deus enquanto Ele nos move para esse fim.

Essa distinção evita dois erros opostos. De um lado, o racionalismo espiritual, que pretende reduzir toda a vida cristã ao que pode ser previsto e administrado pela razão. De outro, um falso misticismo, que despreza a razão, a prudência e as virtudes em nome de supostas inspirações interiores. João de Santo Tomás não aceita nenhum dos dois. A graça aperfeiçoa a natureza. O Espírito Santo não conduz uma alma contra a verdadeira razão, mas pode conduzi-la acima do modo comum pelo qual a razão conseguiria dirigir-se sozinha.

Deixar Deus conduzir

Talvez seja esta a dimensão mais exigente da doutrina dos dons: o homem piedoso pode desejar sinceramente fazer a vontade de Deus e, contudo, ainda desejar fazê-la segundo seu próprio modo. É relativamente fácil dizer a Deus: “Eu te servirei.” Muito mais difícil é acrescentar: “E permitirei que Tu determines como.”

A virtude torna o homem firme no bem; o dom torna-o disponível à iniciativa divina. Por isso, a maturidade cristã não culmina numa independência espiritual. Culmina numa dependência mais consciente, mais livre e mais amorosa. Não é a dependência infantil daquele que não sabe caminhar, mas a docilidade sobrenatural daquele que, podendo deliberar e agir, reconhece que a sabedoria divina ultrapassa infinitamente a sua.

Talvez possamos compreender assim a palavra de São Paulo que João de Santo Tomás coloca no centro dessa doutrina: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.” Não se diz apenas que conhecem a lei de Deus, nem apenas que obedecem a seus mandamentos. Diz-se que são conduzidos. Há nisso toda uma teologia da santidade.

A alma começa aprendendo a fazer o bem. Depois aprende a fazê-lo com firmeza. Mais profundamente ainda, aprende a deixar que o próprio Deus determine o movimento de sua vida. A perfeição não está em substituir a ação de Deus por uma competência espiritual adquirida, mas em tornar-se tão ordenado pela graça que a presença de Deus encontre cada vez menos resistência.

Os dons do Espírito Santo são precisamente essa disponibilidade habitual da alma para um Motor mais alto. E talvez aqui esteja uma das lições mais belas de João de Santo Tomás: quanto mais Deus aperfeiçoa uma criatura, não menos, mas mais perfeitamente ela pode ser conduzida por Ele.

A questão em João de Santo Tomás

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O argumento atravessa diversos artigos da Disputação XVIII — Sobre os Dons do Espírito Santo. O Artigo II distingue os dons das virtudes; o Artigo V esclarece a direção superior ligada ao dom de conselho; e o Artigo VIII trata da conexão, necessidade e comparação dos dons com as virtudes.

  • as virtudes teologais unem o homem a Deus como fim último;
  • os dons dispõem a alma a seguir Deus enquanto Ele a move e regula;
  • a moção divina não elimina a razão, mas ultrapassa sua medida limitada;
  • a caridade torna a alma dócil à ação do Espírito Santo.

Nota bibliográfica

JOÃO DE SANTO TOMÁS (João Poinsot). Disputação XVIII — Sobre os Dons do Espírito Santo. Edição bilíngue latino-portuguesa revisada de trabalho, preparada a partir da transcrição de Marco Forlivesi (2007), baseada na edição parisiense de 1886 do Cursus Theologicus.